Arquiteto: Parceiro ou Um Mal Necessário?

[Residencial, Para Clientes]

Quando você pensa em fazer o projeto para a construção/reforma da sua residência você sente um desânimo ao imaginar que terá que lidar com arquiteto, engenheiro e uma obra cheia de peões à sua frente?

OU

Você já se pegou “diminuindo” o projeto de reforma da sua casa só para não ter que lidar por muito tempo com arquiteto, peões e todas as histórias macabras que já ouviu sobre projeto e obras?

OU

Você já decidiu tocar sozinho uma reforma, respirou fundo, se encheu de coragem, fez tudo sozinho e entrou em um caso de amor profundo com sua cama depois, exausto, jurando nunca mais fazer isso de novo?

Se sim, você já deve ter chegado a conclusão de que o papel do arquiteto dentro desse processo pode parecer (e algumas vezes é mesmo) doloroso porém necessário, uma vez que a obra é a consequência direta de um projeto. E para que esse processo ocorra sem tanto sofrimento para todas as partes é preciso entender o que é o Projeto de Arquitetura de uma residência.

Muitos dirão que “é a materialização de um sonho!”; outros dirão: “é investimento!”; outros ainda: “é um desenhinho porque eu já sei o que quero!”; há os que acreditam que “é o processo onde o arquiteto deve atender tudo que eu peço”; e há os traumatizados, que dizem que “é o processo onde eu tenho que aceitar todas as soluções caras e loucas o que o arquiteto exige” – alguém se identificou?

Bem, o pulo do gato é que existe uma resposta diferente para cada cliente e ela será dada de forma diferente por cada arquiteto. Complicado? Não precisa ser.

Se você já teve contato com o mercado de arquitetura, provavelmente sabe que existem arquitetos e Arquitetos no mercado – e não estamos falando de fama ok?! Da mesma forma, existem clientes e Clientes – e não estamos falando de capacidade financeira.

Então, um bom Projeto de Arquitetura Residencial nasce (porque é um parto, de fato) quando Cliente e Arquiteto se encontram sabendo exatamente qual o seu papel dentro do processo de materialização de uma ideia, e respeitam o espaço um do outro. Isso porque um Projeto de Arquitetura é mais do que uma prestação de serviço. Seu processo de desenvolvimento deve refletir uma parceria de trabalho, onde o Cliente entra com suas necessidades específicas e o Arquiteto com sua criatividade, conhecimento, sensibilidade e tecnicalidade para encontrar soluções que atendam as demandas do Cliente, em âmbitos que nem mesmo ele sabe que solicita. A residência, muito mais do que aparentar bonita e agradável aos seus olhos, Cliente, e aos olhos dos seus visitantes, deve refletir as intenções, valores e princípios que você estabeleceu como seu Estilo de Vida. Ela deve ser uma extensão daquilo que te traz tranquilidade e paz durante o tempo que você viver ali, seja por poucos anos, seja por uma vida. Ela deve ser seu Lar!

Portanto, esse artigo fala sobre aquilo que não está escrito nas revistas e manuais de arquitetura e construção e é fundamental para que o processo de planejar e edificar seu lar, que vai além de piso, parede e teto, seja menos doloroso – porque não serei eu que direi que fazer uma obra, pequena, média ou grande, não é um processo cansativo e trabalhoso, afinal, sair da zona de conforto exige esforço, paciência e dedicação.

Pare um pouco e pense comigo: uma vez que grande parte das pessoas passa mais tempo fora que dentro de seu lar, este deveria ser sinônimo de refúgio, deveria ser aquele lugar onde você gosta de estar, seja para receber amigos, seja para ver seu programa preferido sozinho, com pipoca e pijama, seja para fazer qualquer coisa que você aprecie fazer para se sentir bem, sozinho ou com sua família, certo? Pois bem, para atingir esse fim é preciso superar alguns dilemas que normalmente surgem quando se estabelece a relação entre arquiteto e cliente, para que o processo que muitas vezes começa como um “namoro” promissor não termine em insatisfações, discussões e até mágoas (de ambas as partes).

“Ah, Klely, isso é utopia” você deve estar pensando. Incrédulo? Vem comigo e vamos buscar a visão além do alcance.

Primeiramente, é fundamental que o cliente (você!) saiba qual é a função do arquiteto dentro do desenvolvimento do Projeto de Arquitetura.

“Uai, isso é óbvio.”

Será?

O papel do Arquiteto Residencial vem sendo pensado e repensado há bastante tempo e não ouso trazer uma conclusão sobre o assunto, mas gostaria de propor uma reflexão que está além das quatro paredes dos cômodos de um lar.

Temos a tendência de pensar no Arquiteto como um solucionador de problemas – e isso é correto – e como um materializador de sonhos – e já explico porque isso não é correto. O que não é visto pela maioria dos clientes (e, ouso dizer, por uma considerável parte dos arquitetos) é que seu papel vai muito além disso.

No caso residencial, o Arquiteto é responsável por um trabalho que vai além de satisfazer os pedidos de cor, forma e função desejados do cliente. Ele tem a responsabilidade de entender o que o cliente diz nas entrelinhas de suas demandas e propor soluções que se venham a melhorar a qualidade de vida da pessoa ou família que ali reside, além de atender os aspectos legais, técnicos, funcionais e estéticos da reforma ou construção.

Complexo?

É! E como!!! Especialmente quando se estabelece uma combinação de baixa qualidade técnica de profissionais, um mercado baseado em preço e clientes que não conseguem entender que um Projeto de Arquitetura tem um impacto direto e fundamental na qualidade de vida dos residentes. Ai é choro e ranger de dentes…

Você, o Cliente, quando tem a primeira conversa com um Arquiteto buscando um profissional com um orçamento que caiba no seu bolso e atenda seus desejos, pode chegar até ele de duas, e apenas duas, formas: sabendo o que quer ou não sabendo o que quer. Em ambos os casos o papel do Arquiteto, além de deixar claro quais produtos irá lhe entregar (a parte técnica e fundamental do processo), é entender qual o nível de complexidade será exigido da sua prestação de serviço, quais os motivos por trás de suas necessidades, quais delas manter, quais abrir mão, quais aprimorar… Isso porque ele deverá ter plena segurança e liberdade para lhe dizer que aquele ambiente da mostra de arquitetura que você adorou ou aquela sugestão da pessoa que você ama ou o estilo que você achou lindo de viver na revista que o Arquiteto te entregou durante a fase de pesquisa de ambientação não é a melhor solução para o SEU estilo de vida, e caberá a você questioná-lo até que entenda e acate essa decisão, cedendo às justificativas reais dadas e não à “opinião soberana” do arquiteto. Cabe ao Arquiteto enxergar o que não é dito pelo Cliente e propor soluções inclusive para o que não foi pensado por ele. Cabe ao Cliente manter o Arquiteto dentro da realidade financeira e prática do seu projeto, sob pena dele não ser edificado ou de ocorrerem mudanças intermináveis durante a obra ou, o pior, a obra ser interrompida antes de sua finalização. E esse é o pesadelo de qualquer Cliente, Arquiteto, Engenheiro e Peão: uma obra que proporciona retrabalho, que prolonga o prazo, que gera aumento de custo e a soma destes fatores acaba com a paciência de todos. Faz sentido pra você?

Muitas vezes o sonho trazido por você, Cliente, deve ser transformado para se adequar à realidade. Muitas vezes ele deve ser feito conforme seu desejo, simplesmente porque é a tradução fiel de uma necessidade viável. E muitas vezes ele não passa de um sonho e deve ser deixado de lado. E não cabe a você, Cliente, ver isso. É função do Arquiteto! Cabe a você cobrar dele esse entendimento, ouvir suas ponderações e ajudar a aprimorar as soluções propostas. Da mesma forma cabe ao Arquiteto ser profissional para entender até onde deve ser sustentada ou não uma solução e fazer a ponte entre você e o pleno entendimento dos espaços físicos de sua residência.

E cabe a vocês, juntos, conseguirem estabelecer um diálogo franco e aberto que faça com que suas demandas como Cliente se materializem da melhor forma, resultem em melhoria na qualidade de vida para você e sua família, e não sejam apenas desejos realizados.

A essa altura você está pensando que esse arquiteto não existe e se existir custa uma fortuna.

Bem, a nossa intenção é trazer provocações a fim de ajudar a repensar o mercado de Arquitetura, não somente no âmbito dos profissionais mas fazendo com que você, Cliente, possa ter mais consciência dos processos desse mercado. Somente assim poderá ser atendido com a qualidade profissional que merece e pagará o valor justo pela melhoria de sua qualidade de vida, e não o preço mais baixo cobrado por um profissional que está mais interessado em produzir de forma rápida, descompromissada, muitas vezes replicando soluções em escala industrial e sem se importar com suas necessidades específicas.

Desejamos também que os Arquitetos não tenham mais o pensamento de que o projeto ideal é o projeto “sem cliente”.

De novo você deve estar pensando: “Utopia.”

Talvez. Mas uma jornada começa com um passo.

Fique à vontade para dizer sobre sua experiência positiva ou negativa nos comentários assim como colocar suas dúvidas e questões. Responderemos todas.

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Um abraço e até a próxima!

A Ruiva

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